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O cenário é desolador. Imagine uma praça de guerra que produz, todos os anos, ao menos 11 mil mortos e muito milhares de sequelados. Pois é este o número de fatalidades produzidas por acidentes com motociclistas no trânsito brasileiro anualmente.

O número é alarmante e quantifica os efeitos de uma epidemia silenciosa que faz vítimas justamente entre a população mais pobre e desassistida – que é obrigada a se valer das motocicletas para se deslocar pelas perigosas ruas e avenidas de cidades que não têm um sistema de transporte coletivo eficiente e humanizado.

O crescimento do número de motocicletas na frota nacional é um fenômeno que vem se cristalizando há anos sem que nada seja feito para contê-lo. Ele é consequência da necessidade de prover meios para que a população não fique aprisionada e impedida de fazer valer seu direito de ir-e-vir.

Se no Brasil o quadro já é tétrico, o que se verifica no Piauí é absolutamente aterrador. De acordo com o IBGE, o número de motocicletas, motonetas e ciclomotores aumentou quase que exponencialmente na primeira década do século. Entre 2006 e 2011, o aumento de veículos de duas rodas foi de 61 por cento. Esse crescimento ficou acima dos dois dígitos até 2013, caindo um pouco nos anos seguintes em função de fatores estruturais (crise econômica e posteriormente a COVID).

As consequências desse aumento foram desastrosas para o Piauí e, particularmente, para a nossa capital. O número de mortos em acidentes de trânsito com motocicletas chegou a 17,6 fatalidades para cada 100 mil habitantes. Isso é praticamente dez vezes mais mortalidade do que a provocada pela COVID no Brasil.

As internações decorrentes de acidentes acometeram 17,4 motociclistas por grupo de cem mil habitantes em 2021 – seis vezes mais do que a média nacional. O Piauí ganhou o título nefasto de estado mais mortal do País nesse tipo de registro. Uma lástima!

Enquanto tudo isso acontecia, a Prefeitura de Teresina deixava perder um investimento que, atualizado, beira o bilhão de reais. O Sistema Inthegra, o grande vilão do transporte teresinense, começou a se desintegrar assim que foi inaugurado, no ano de 2018. Nove corredores de ônibus, oito terminais e 40 abrigos foram abandonados pela administração caótica e hoje se encontram paralisados e imprestáveis.

Acuada pela paradoxal falta de ônibus, a população se valeu das motonetas para sanar a imobilidade a que foi condena pela incúria dos administradores que, a despeito das várias promessas, jamais conseguiram encaminhar uma solução para o problema.

Um relatório de auditoria produzido pelo Tribunal de Contas do Estado apontou a excessiva motorização da população como causa para essa tragédia que se desvela a olhos vistos nas ruas da cidade. A população aprendeu, com o risco da própria vida, a se equilibrar sobre duas rodas nesse perigoso jogo de vida e morte do trânsito para correr atrás do ganha-pão. Hoje, é essa a parcela que resiste a aderir ao ultraprecrário sistema de transportes, que é caro, lento e ineficiente.

Cabe ressaltar que o vale-tudo do trânsito tem sido enfrentado sem a necessária formação técnica do condutor. Não é raro avistar pessoas dirigindo motocicletas sem equipamentos de proteção, calçadas de maneira inadequada, dirigindo como se não houvesse leis de trânsito.

O governo do Estado e nós, aqui no DETRAN, temos nos empenhado em fiscalizar e reeducar os infratores. As campanhas têm surtido efeito, mas a solução só virá mesmo com a reorganização do sistema de transporte coletivo em Teresina.

Enquanto isso não for feito, os hospitais púbicos permanecerão lotados de feridos, famílias enlutadas serão cada vez mais frequentes e a economia continuará tropeçando nas estatísticas de uma tragédia permanente que se abate justamente sobre os mais jovens, que representam a parcela mais produtiva da população.

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